
Por: Mario Eugenio Saturno
Um excelente e interessante texto de D. Estevão Bettencourt trata de Freud e a Religião. Sigmund Freud, que dispensa apresentação, resolveu explicar a origem da Religião através de um mito, do Velho Gorila. Na época de Freud, a Ciência, que ainda engatinhava, cria que a humanidade primitiva vivia como uma horda de gorilas ou de animais selvagens, porém, a Antropologia não comprovou isso nem nos vestígios da pré-história nem nas populações primitivas ainda hoje existentes.
Cabe ressaltar que o totemismo não é a forma originária da Religião. A escola Anthropos de Viena averiguou que os povos primitivos eram monoteístas. O totemismo apareceu mais tarde, assim como os tabus religiosos. Com efeito, à medida que o homem foi desenvolvendo a sua civilização, sentiu mais a sua dependência em relação ao sol, à chuva, à terra, ao fogo; este sentimento de dependência suscitou o culto a tais elementos e a ruptura do monoteísmo inicial em favor do politeísmo; assim a religião, pura e simples como era, foi-se diversificando não só no politeísmo e na idolatria, mas também na magia, no fetichismo, no totemismo, etc.
A antropologia de Freud quase não deixa espaço para as tendências mais elevadas e nobres do psiquismo humano. Para Freud, As expressões da pessoa são manifestações de cobiça sensual, inversão e perversão, desfigurando injustamente a personalidade humana.
A tentativa de reduzir o amor a Deus e a renúncia à vida sexual ao próprio instinto sexual camuflado, vem a ser grave sofisma, que ignora a realidade mais profunda do ser humano. Dom Bettencourt afirma que, infelizmente, Freud não reconheceu a existência de uma alma espiritual transcendente em relação à matéria: daí a imagem falsa que do ser humano ele apresenta. Poderíamos entender que houve uma extensão a todos os homens do que ele observou em indivíduos psiquicamente tarados.
A alma (psiqué) humana espiritual preenche as funções da vida sensitiva e intelectiva. Como sensitiva, a alma é rica de tendências, emoções e paixões, entre as quais a tendência sexual, que se afirma especialmente na puberdade e na juventude. Enquanto intelectiva, a alma humana também tem suas tendências, mas direcionados à verdade, à justiça, ao amor, à beleza. O homem tem em comum com os animais irracionais a vida sensitiva. Mas ele se eleva destes pela sua realidade espiritual, que é intelectiva e que o torna imagem e semelhança de Deus.
É de lamentar que no plano antropológico as teorias de Freud tenham ido tão longe, dando a muitos indivíduos a impressão de que devem ceder aos seus impulsos sexuais (cegos ou não) a fim de não incorrerem em neuroses. Esta concepção provoca o erotismo, a onda de paixões e de crimes que infestam a sociedade contemporânea. Assim, faz-se mister restaurar no homem a consciência para viver a verdade, a bondade altruísta, o amor nobre e a justiça e harmonizados com os instintos cegos.
Mario Eugenio Saturno é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva e congregado mariano. (mariosaturno@uol.com.br)